Guia de viagem · 9 min de leitura
Quanto custa uma eurotrip? Orçamento real, país por país
De Lisboa a Roma, passando por Madrid e Paris: descubra quanto você vai gastar de verdade em cada país — com valores em euro, dicas de hospedagem e os gastos que ninguém te conta antes de embarcar.
O que é uma eurotrip de verdade — e por que o orçamento varia tanto
Antes de qualquer número, entenda que 'eurotrip' é um guarda-chuva enorme. Uma semana em Lisboa ficando em hostel compartilhado é completamente diferente de uma semana em Paris com hotel de três estrelas — e os dois cabem dentro do mesmo rótulo. Por isso, neste guia, trabalhamos com três perfis: o viajante econômico (hostels, mercados, transporte público, €40–60/dia), o viajante intermediário (hotéis simples ou apartamentos, restaurantes de bairro, €80–120/dia) e o viajante confortável (hotéis boutique, jantares completos, táxis ocasionais, €150–220/dia). Esses valores incluem acomodação, alimentação, transporte interno e atrações, mas excluem passagem aérea internacional.
Outro fator que derruba qualquer planilha: a sazonalidade. Na alta temporada (junho a agosto), os preços de hospedagem sobem entre 30% e 60% em destinos como Barcelona, Florença e Paris. Um quarto em hostel que custa €22 em março pode chegar a €38 em julho na mesma cidade. Se você tem flexibilidade de datas, viajar entre março e maio ou em setembro e outubro é o movimento mais inteligente para esticar o orçamento sem abrir mão do clima agradável.
Portugal: o país mais acessível da rota — mas por quanto tempo ainda?
Portugal ainda é o ponto de entrada mais gentil para o bolso brasileiro na Europa Ocidental. Em Lisboa, uma cama em hostel no bairro do Intendente ou de Arroios custa entre €18 e €28 a noite; um quarto duplo em guesthouse familiar fica entre €55 e €85. Para comer, a combinação imbatível é o menu do dia nos restaurantes locais — entrada, prato, sobremesa e bebida por €9 a €13 — e o pastel de bacalhau na padaria da esquina por €1,20. O metro de Lisboa custa €1,61 por viagem; o passe diário sai por €6,65. No total, um viajante econômico consegue viver bem em Lisboa com €50 a €60 por dia.
No Porto, os preços são ligeiramente mais baixos que em Lisboa: hostels a partir de €16, refeições no mercado do Bolhão por €8. Já o Algarve, especialmente Lagos e Albufeira no verão, rivaliza com destinos europeus mais caros — um quarto duplo básico em julho pode custar €110 ou mais. A grande virada de jogo em Portugal é o transporte entre cidades: o comboio Lisboa–Porto custa entre €15 e €25 no Alfa Pendular se comprado com antecedência, e o ônibus da FlixBus faz o mesmo trajeto por €7 a €12. Reserve com pelo menos duas semanas de antecedência para os melhores preços ferroviários.
Um aviso honesto: Portugal ficou significativamente mais caro entre 2021 e 2024 devido ao boom turístico e à valorização imobiliária. Os valores acima refletem a realidade de 2024-2025. Quem visitou em 2018 e volta com a mesma planilha vai se surpreender — calcule uma margem de 20% a mais do que qualquer guia mais antigo sugere.
Espanha: diversidade de preços tão grande quanto o país
Madrid e Barcelona são as duas capitais da eurotrip espanhola, mas operam em realidades financeiras distintas. Em Madrid, um hostel no centro (Gran Vía, Malasaña) custa €20 a €32 por cama; em Barcelona, prepare-se para €28 a €45 pelo mesmo tipo de acomodação. O motivo é simples: Barcelona recebe mais turistas internacionais e tem estrutura de preços mais próxima de Paris do que de qualquer cidade espanhola. O metrô nas duas cidades usa o sistema de 10 viagens (T-Casual), que sai por €12,35 em Madrid — uma das tarifas de transporte urbano mais baratas da Europa Ocidental.
A alimentação é onde a Espanha brilha para quem sabe onde olhar. O menu del día é uma instituição sagrada: por €11 a €16, você recebe entrada, prato principal, pão, bebida e sobremesa nos restaurantes de bairro entre 13h e 16h. Nos mercados cobertos — La Boqueria em Barcelona, Mercado de San Miguel em Madrid — os preços são turísticos, mas as barracas internas dos mercados de bairro, como o Mercado de Maravillas em Madrid, servem refeições completas por €8. As tapas gratuitas que acompanham bebidas, tradição forte em cidades como Granada, Salamanca e Sevilha, podem literalmente substituir uma refeição se você pedir três rodadas de cerveja (€1,50 a €2,50 cada). No total, espere €55 a €70 por dia no perfil econômico em Madrid, e €65 a €85 em Barcelona.
França: Paris é cara, mas a França inteira não é
Paris assusta no orçamento, e o medo é parcialmente justificado. Um hostel decente nos arrondissements centrais (2º, 3º, 4º) custa €35 a €55 por cama — quase o dobro de Lisboa. Um café com croissant numa brasserie turística sai por €8 a €12; o mesmo café num bar de bairro frequentado por parisienses custa €1,80 a €2,50. Esse é o grande segredo de Paris: a cidade tem dois sistemas de preços funcionando em paralelo, e o turista que aprende a acessar o segundo economiza 40% facilmente. O metrô usa sistema de zonas, mas toda Paris intramuros fica nas zonas 1 e 2 — o carnet de 10 viagens custa €17,35, e o passe Navigo Jour (ilimitado por dia) sai por €8,65.
Para as atrações, o planejamento faz toda a diferença financeira. O Louvre cobra €22 a entrada, mas é gratuito para menores de 26 anos residentes da UE — e, para todos, na primeira sexta-feira de cada mês após as 18h. O Musée d'Orsay (€16) e o Centre Pompidou (€15) seguem lógica parecida de gratuidades noturnas. O Paris Museum Pass (€52 por 2 dias, €66 por 4 dias) só vale a pena se você planeja visitar pelo menos três museus pagos por dia — faça a conta antes de comprar. No perfil econômico, Paris custa €75 a €95 por dia; no intermediário, €130 a €170.
Fora de Paris, a França fica surpreendentemente razoável. Lyon, segunda cidade gastronômica do país, tem hostels a €22 e o famoso bouchon lyonnais serve um almoço completo por €15 a €20. Bordeaux, Estrasburgo e Marselha têm estrutura de preços parecida com a Espanha. Se a eurotrip incluir cidades francesas além de Paris, o orçamento médio nacional cai bastante — calcule uma média de €60 a €75 por dia considerando Paris mais duas ou três cidades do interior.
Itália: onde a comida salva o orçamento (e o turismo o estraga)
Roma e Florença vivem uma tensão permanente entre o melhor custo-benefício alimentar da Europa e alguns dos preços de hospedagem mais inflados do continente. Um hostel em Roma no bairro do Trastevere ou perto da Termini custa €22 a €40; em Florença, especialmente em julho e agosto, dificilmente você encontra algo decente abaixo de €35. Veneza é categoria à parte: a cidade-ilha cobra um adicional de existência em tudo — hostels começam em €45, e uma pizza simples numa trattoria saí por €14 a €18. Se Veneza é obrigatória no seu roteiro, calcule pelo menos €30 a €40 a mais por dia do que nas outras cidades italianas.
A boa notícia é que comer na Itália pode ser baratíssimo se você resistir ao impulso de sentar na praça principal. Uma fatia de pizza al taglio (vendida por peso) em Roma custa €3 a €5 e alimenta qualquer fome entre museus. O aperitivo milanês — que acontece entre 18h e 20h em bares do Navigli e da Brera — inclui buffet livre de antepastos, bruschettas e mini-sanduíches com a compra de um drinque por €7 a €10. Um prato de pasta em trattoria de bairro custa €9 a €13; com uma taça de vinho da casa (€3 a €5) e água, a conta fica em €14 a €19 — honesta para os padrões europeus. O perfil econômico na Itália fica entre €60 e €80 por dia, mas sobe para €90 a €110 se o roteiro incluir Florença alta temporada ou Veneza.
O transporte ferroviário italiano é excelente e, reservado com antecedência, competitivo: Roma–Florença no Frecciarossa (trem de alta velocidade, 1h30) sai por €19 a €29 antecipado, contra €45 a €55 no dia. Roma–Nápoles leva 1h10 e custa €19 a €35. O Eurail Pass raramente compensa para quem faz apenas Itália — os preços nacionais antecipados batem o passe na maioria dos trechos.
Montando o orçamento total: quanto guardar antes de embarcar
Para uma eurotrip clássica de 21 dias cobrindo Portugal (5 dias), Espanha (5 dias), França (5 dias, sendo 3 em Paris) e Itália (6 dias), o orçamento de viagem — excluindo passagem aérea internacional — fica assim no perfil econômico: aproximadamente €1.200 a €1.500 no total, ou seja, €57 a €71 por dia. No perfil intermediário, espere €2.000 a €2.600 (€95 a €123/dia). No perfil confortável, €3.200 a €4.000 (€152 a €190/dia). A esses valores, some a passagem aérea: saindo de São Paulo ou do Rio, voos para Lisboa com retorno de Roma custam entre R$3.500 e R$6.500 em classe econômica, dependendo da antecedência e da época.
Três categorias de gastos que a maioria das pessoas subestima: (1) taxas de bagagem em voos low-cost internos — uma mala despachada na Ryanair ou Vueling custa €20 a €45 por trecho, então se possível viaje só com mochila de cabine; (2) seguros e taxas de cartão — contrate um cartão sem anuidade e sem IOF para compras internacionais (Wise, C6 Bank e Nomad são opções populares entre brasileiros) e um seguro-viagem com cobertura mínima de US$30.000 para emergências médicas, que custa entre R$180 e R$380 para 21 dias; (3) a reserva de emergência — separe pelo menos €150 a €200 de margem para o imprevisto que sempre acontece: o trem que perdeu, o guarda-chuva que precisou comprar em Paris, o jantar que virou celebração espontânea numa cantina romana. Viagem boa é aquela que você consegue dizer sim quando o momento pede.
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